a Sobre o tempo que passa: Uma dúzia de breves princípios fundacionais para combate de concepções do mundo e da vida

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

30.12.09

Uma dúzia de breves princípios fundacionais para combate de concepções do mundo e da vida


1

Balanços do ano, balanços da década, profecias do que há-de vir e tudo ao ritmo dessa hiper-informação que não informa, com notícias históricas de hora a hora, semanários políticos de fim-de-semana e revistas cor-de-rosa, para colorirmos o que é cinzento...


2

De uma coisa tenho a certeza: tudo vai continuar como dantes, neste mais do mesmo de uma decadência que, entre nós, costuma durar décadas, quando apenas se vislumbram causas externas de crises financeiras e políticas, mas onde só existe aquilo que se pode medir em quantidades e gráficos, quando o problema é espiritual e metafísico, porque só por dentro das coisas é que as coisas realmente são.


3

Penúltimo dia do ano a que chegámos, com menos desdivinização e mais desencantamento, naquilo que alguns continuam a qualificar como choque de civilizações, só porque temem peregrinar pelas próprias origens. Chegariam à conclusão que não é a história, progressista ou reaccionária, que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo...


4

O pensamento politicamente correcto deste último meio século sempre disse que caminhávamos para um fim da história, como muitos amanhãs cantando, em nome da revolução ou da contra-revolução. Os respectivos sucedâneos preferem o planeamentismo e dão-lhe hoje o novo nome de investimento público. Por mim, continuo a rejeitar o construtivismo...


5

A história é um ditadura de factos, de fenómenos resultantes da acção do homem concreto, gerando-se sucessivas ordens comandadas por uma espécie de mão invisível, onde o homem através de meios não desejados por ele, nem projectados por ninguém, é levado a promover resultados que, de maneira nenhuma, fazem parte das suas intenções.



6

Os detentores do poder são completamente indiferentes ao bem estar ou ao mal estar dos que não têm poder, excepto na medida em que os seus actos são condicionados pelo medo


7

Os princípios são o eixo da roda da mudança, pelo que, alterando-se a matéria, terão de variar as consequências que deles podem extrair-se.


8

Para um veículo avançar no caminho que o seu condutor determinou, tem que andar sobre rodas que monotonamente giram sempre em torno de tal eixo.


9

Não é por acaso que a roda é o símbolo antigo da corrente do devir, do círculo da geração. Tem um centro imóvel, um eixo, símbolo da estabilidade espiritual, mas movimenta-se, apesar de o eixo se manter íntegro, porque representa a permanência de certos valores.


10

O verdadeiro liberal é, por natureza, um reformador social, o paladino do humilde explorado e o adversário de todos os altos interesses dominantes e predatórios


11

Os capitalistas não são os únicos a terem privilégios egoístas e predatórios; o operariado bem organizado, abrangendo muitos milhões de trabalhadores, pode também ser predatório e perigoso ao bem-estar comum


12

Repetindo: o verdadeiro liberal nunca diz isto é verdade, apenas sendo levado a pensar que, nas circunstâncias actuais, este ponto de vista é provavelmente o melhor.


Os últimos oito parágrafos são mistura de citações: Tocqueville, Toynbee, Russell, Hill Green, Ferguson, Smith e Hayek. Já nem sei distingui-los de mim mesmo. Uma questão de fé na aventura da liberdade, contra os revolucionários frustrados que nos reaccionarizam, neste caminho para a servidão...