a Sobre o tempo que passa: Para transformarmos as vulnerabilidades em potencialidades e evitarmos que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

17.10.07

Para transformarmos as vulnerabilidades em potencialidades e evitarmos que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades


José Sócrates tem uma semana agitada pelos desafios representativos que lhe são movidos. Apenas lhe desejo boa sorte para que o acaso negocial nos permita uma janela de oportunidades no contexto europeu. Não bastavam os polacos e os kosovares, os russos e os gaienses, todas essas incómodas borbulhagens que nos fazem irritante incómodo. Afinal, a formosa e diâmica modernização desta pátria que vivia no obscurantismo, antes da coabitação dos presentes "action men" da esquerda moderna, parece desequilibrada. Agora é Santana que regressa, Jerónimo que sobe ao palco e tantos outros que pareciam perdidos nas notas pé-de-página da história. E nem a inauguração da igreja trinitária das treze portas e as benzeduras por reflexo condicionado nos valem.


Afinal, os funcionários públicos podem voltar a autodespedir-se com quinze anos de trabalho, Rui Pereira vai propor nova lei sobre manifestações, os operadores judiciários vão preparar alternativas ao novo Código do Processo Penal, Jardim Gonçalves consegue resposta jurídico-formal às acusações de Berardo e até o presidente do Tribunal Constitucional se transforma em actor politiqueiro, vindo a público comentar o discurso do novo líder do PSD, antes de um eventual comunicado do palácio belenense sobre a matéria.


Por outras palavras, bastou que um, ou dois, perturbadores estratégicos entrassem na liça politiqueira, para que se tornasse patente o vazio de estratégia que marca a actual encruzilhada. Isto é, tanto a ideia de Portugal como a ideia de democracia estão dependentes do actual modelo de gestão de dependências e interdependências e falta uma reflexão mais profunda sobre o elenco das nossas potencialidades e das nossas vulnerabilidades. Falta, sobretudo, uma adequada forma de transformarmos as vulnerabilidades em potencialidades e de evitarmos que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades.


Sócrates, o representante da secção nacional do Partido Socialista Europeu, pode ter confiança em Menezes em matéria de política europeia, porque este também é o representante da secção nacional do Partido Popular Europeu. E ambos estão dependentes dos programáticos globais destas duas multinacionais políticas sobre a matéria. Uma vulnerabilidade que, bem gerida, pode transformar-se em potencialidade.


Tal como as histórias de Jardim Gonçalves, o criador do principal banco privado português, podem transformar essa potencialidade numa vulnerabilidade que pode afectar todo o sistema bancário português, porque a personalização do poder é um perigo que só o bem senso do Banco de Portugal tem conseguido driblar, depois das sucessivas perturbações do nosso candidato a Soros, assim se demonstrando como com tantos socialistas e sociais-democratas, ainda vivemos em regime de sociedade de casino.