a Sobre o tempo que passa: Mais um protesto liberal contra o capitalismo sem alma a que chegámos...

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

18.9.07

Mais um protesto liberal contra o capitalismo sem alma a que chegámos...



O Dalai Lama, o Papa de Roma, um ilustre rabino ou um teólogo islâmico são vozes daquele passado presente que nos dão semente de futuro para aquilo a que muitos chamam Espírito. Todos reforçam aquela componente de humanismo de que carece a presente sociedade de casino deste capitalismo que, perdendo as suas raízes de ética protestante e de uma concepção liberal do mundo e da vida, deixou de ter alma.




O tal capitalismo dominante chama-se, na China, Partido Comunista; na ex-URSS, Putine; por estas bandas, bloco central, entre o, agora, badalado Paulo Teixeira Pinto, e o, agora, silencioso, Pina Moura. Daí que subscreva palavras de Henrique Neto, noutro dia, na televisão, quando dizia que o pior que nos tem acontecido é misturarmos a ignorância com o poder, com Joaquim Aguiar, ao lado, a explicar, mais uma vez, como o actual sistema partidocrático está rigidamente cadavérico, porque o bloqueio existente apenas é o que melhor serve a plural rede de interesses que o sustenta.




Claro que tanto não sou situacionista como não alinho nas lamúrias ideológicas da globalização alternativa à Porto Alegre, que tem candidatos e gurus do Bloco de Esquerda como porta-vozes e profetas. Muito menos, quero ficar entalado entre o Engenheiro Ângelo Correia e o banqueiro Manuel Dias Loureiro, cada qual com o seu luizinho, tal como não me iludem as sucessivas novas tecnologias porteiras. Isto é, não me satisfazem as bissectrizes deste paralelograma de forças e até já não tenho idade para comer ideologias, incluindo a que já pensei ser minha. Sobretudo, as que retomam o suicidário dos confrontos maniqueístas entre a direita e a esquerda, sem quererem olhar de frente a complexidade do real, que continua a ser desfocado pelas lentes de um perspectivismo que não consegue assumir a coragem da aventura e do pragmatismo.




Há momentos de encruzilhada em que sentimos que chegou ao fim o ciclo do interregno. Porque, quando os gestores do "agenda setting" ocuparam o lugar dos anteriores "opinion makers", a opinião pública ficou obrigada a navegar à vista das sucessivas vagas sensacionalistas. Logo, tornou-se inevitável que o presente Estado-Espectáculo ficasse mero teatro de marionetas, com muitos discursos comunicacionais de mera literatura de cordel e outros tantos bobos e fantoches que vão recolhendo os restos das orgias da corte.






De pouco vale que a opinião crítica, dos que pensam de forma racional e justa, tente resistir a este rolo compressor, onde o que parece, e aparece, são aquilo que realmente se oferece ao consumidor de audiências, com os seus figurantes de prós e contras. Ninguém já consegue furar o bloqueio deste poder infra-estrutural que marca a encenação dominante, até porque ela está totalmente dependente daqueles donos do poder que sempre nos condicionaram, desde que fingimos que já não existia o chicote do absolutismo.




Ninguém duvida que o "despotismo" do poder económico, medido pelo "ter", controla o "ser". Basta notar como o dito condiciona o poder político e meceniza a opinião crítica publicável, incluindo a que se dispõe a dar, aos distribuidores de avenças e subsídios, o iluminista manto diáfano daquela ilusão que lhes disfarça as verdades.




Até os antigos refúgios pluralistas do passado se vão extinguindo em regime de morte lenta, como acontece com os espaços universitários, ao serem enredados por uma estadualização que agora está cativa do neofeudalismo e do poder bancoburocrático, os quais, dividindo para reinar, vão asfixiando a revolta dos homens livres, livres da finança e dos partidos, como devia ser uma parcela significativa da chamada autonomia da sociedade civil e dos indivíduos.




E lá voltamos à decadente ditadura da incompetência, com muitos bailados de bonzos, endireitas e canhotos, os quais ainda continuam a canalizar a representação dos incautos para um clube de reservado direito de admissão a que o ministro da justiça, ontem, qualificou como "comunidade política", a que aprovou o vigente Código do Processo Penal, agora em conflito com a chamada "comunidade jurídica", como se a justiça tivesse que estar dependente de tal contrato de barganhas, só porque houve um pacto feudal de controlo da crise entre o PS e o PSD, com a benção presidencial. Esses venerandos e reverendos cardeais que, em suas sacristias e concílios, não reparam que precisam de um venerandíssima e reverendíssima reforma que os remeta para a categoria dos infuncionais. Obrigado, Dalai Lama!