a Sobre o tempo que passa: A queda dos anjinhos papudos e os anjos que não caem

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

30.6.05

A queda dos anjinhos papudos e os anjos que não caem



Leio, nas parangonas, que, para além de estarem inventariados mundialmente cerca de 200 milhões de consumidores habituais de droga, Isaltino de Morais foi constituído arguido, depois de Avelino Ferreira Torres, depois de Fátima Felgueiras. Reparo nos meandros que elevaram Artur Albarran ao estrelato: foi director de jornais por influência de Franco Nogueira e do grupo Espírito Santo; foi criativo em campanhas do CDS de Adriano Moreira, quando tinha excelentes relações com a Confederação do Comércio; acabou sócio dos grandes deste mundo global, nomeadamente de Carlucci, apesar de não chegar a representante da Carlyle em Portugal, dado que Martins da Cruz, o amigo do Zé Manel, foi o preferido. Entre Isaltino, Avelino, Fátima e Artur, eis os bastidores daquele Estado-Espectáculo que vai sufocando uma democracia que se enreda nas pequenas personalizações do poder, enquanto os homens comuns sentem cada vez mais nostalgia pelos grandes militantes históricos recentemente falecidos.



A política da teatrocracia se teve êxito nalguns homens de cara de plástico, mesmo sem sedução dental, começa a mostrar-nos que os ídolos ocasionais não podem ter pés de barro e que o crime pode nem sempre compensar. Só que os cinzentos donos do poder que sustentam os fios que elevam tais (para)seres ao palco da vaidade continuam por aí a lavar as mãos como Pilatos e talvez a fingir que nunca com eles privaram.

Não saúdo a queda dos anjinhos decaídos desta política de imagem, enquanto não acontecer a efectiva queda dos anjos escondidos, cujos periscópios ainda andam por aí à procura de novos isaltinos, avelinos, fátimas e artures. Quem efectivamente mandou alguns diabinhos para a papuda selva das asinhas celestiais continua a comandar e a fabricar novos fantoches politiqueiros e intelectuários, num sobe e desce da fama que foge, moldando emoções, instrumentalizando ideias e demonstrando como a cobardia, a luxúria, a vaidade e a inveja nos continuam a apodrecer.